quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Calçoene e seus tesouros arqueológicos, históricos, naturais e humanos - Parte V

The archaelogical, historical, natural and human treasures of Calçoene.

No Brasil só existe uma estrutura pré-colombiana, até então conhecida, com estas características: um círculo formado por pedras monolíticas, estrategicamente posicionadas, cercada de enigmas, mas que já teve uma utilização desvendada: identificar o solstício de inverno. Trata-se do Sítio do Rego Grande, que recebeu o nome do igarapé que o margeia e está situado no alto de uma pequena colina a dezesseis quilômetros do município de Calçoene. Pela semelhança com Stonehenge, na planície de Salisbury, na Inglaterra, recebeu o apelido de “Stonehenge do Amapá”.

In Brazil there is just one pre-columbian structure with this characteristics: an circle made by more than one hundred monolith rocks estrategically placed, surrounded of mysteries. It´s the “Rego Grande Site”, located on top of a hill sixteen kilometer far from the city of Calçoene ( state of Amapá, Brazil ). For its appearance is called “Stonehenge of Amapá”.

Recently one of these misterys was uncovered: the structure was an astronomic observatory to identify the winter solsticie.

 Fotos: Flávia Pennafort
A estrutura de pedras é melhor visualizada por via aérea. São mais de cem pedras de granito que estão dispostas em um círculo. Cada uma delas tem uma função neste calendário astronômico, mas muitas interrogações precisam ser esclarecidas.
 Calcula-se que este sítio tenha mil anos. As pedras de granito têm altura e largura variadas. A maior delas tem quatro metros de altura, pesando mais de quatro toneladas. Investigações recentes levam a crer que as pedras tenham sido trazidas de uma pedreira situada a dez quilômetros acima do igarapé do Rego Grande. O transporte era feito em jangadas de bambu e rebocadas por canoas. Folhagens de palmeiras eram utilizadas para arrastar as mesmas até o alto da colina onde foram fincadas.

One estimate the site is one thousand years old. The rocks vary in height and width. The longest rock is about four meters and the heaviest one is about four ton. Recent researches claim that they were brought from a quarry 10 kilometers up the Rêgo Grande river. Rafts made by bamboo and plastered by canoes were used as means of transport for bring the rocks. Leaves of palm trees were used to drag them from the river untill the top of the hill.

A palavra solstício vem do latim sol (Sol), e sistere (que não se move).
O solstício de inverno ocorre quando o sol atinge a maior distância angular em relação ao plano que passa pela linha do Equador. Algumas pedras do sítio chegam a ter mais de 4 toneladas. O transporte e o trabalho de fincá-las no solo exigiu um alto grau de organização social.
A better view of the site is got by aerial means. There are more than one hundred rocks placed in circle. Each one has a function in this astronomic calendary, but many questions need to be figured out.The word solsticie comes from Latin. Sol ( Sun ) and sistere ( what doesn´t move ).

Na Pedra do Furo pode ser observado o perfil de um rosto. Seria uma prova de que o Sítio do Rego Grande era também um lugar de adorações?

On the “Orifice Rock”you can see a human profiile. Would that be a proof that this site was a place of worship?The winter solstice occurs when the Earth's axial tilt is farthest away from the sun.

It occurs on December 21 or 22 each year in the Northern Hemisphere.Carryng and thrusting the rocks into the ground demanded a high level social organization.

Sabe-se que cada uma das mais de cem pedras tem uma finalidade, mas ainda se tem muito a estudar e a descobrir sobre a utilização do local. Porém já é sabido que a posição de uma das pedras marca o Solstício de Inverno, que ocorre no dia 21 ( ou 22 ) de dezembro, no hemisfério Norte. Alinhada com o movimento do sol, neste dia a pedra não produz sombra. Esta descoberta dá ao sítio uma finalidade prática: um calendário astronômico para determinar a época de plantio e colheita. Uma informação vital para a estrutura econômica de uma tribo. Porém, escavações feitas embaixo de uma pedra sugerem muito mais: foi encontrada uma urna com os restos mortais de quem se acredita ter sido um pajé. O corpo foi enterrado com adornos típicos de líderes espirituais tribais. Esta última descoberta dá outro sentido ao sítio: um cemitério para as autoridades. Nas mesmas escavações foram encontrados inúmeros vasos, sendo que alguns nunca foram usados.

Seriam os inúmeros vasos utilizados para oferendas?

One know each one of the more of one hundred rocks has a purpose, but there are many questions to be figure out. However it is already known that the position of one of the rocks is related to the winter solstice, that occors on december 21 ( or 22 ) in the Northern Hemisphere. Aligned with the sun moviment in this day that rock doens´t cause shadow. This discovery gives to the site a pratical goal: an astronomic calendary to determine plantation and harvest season.

In recent excavation under one rock, archaelogists have found remains from who they believe to have been a religious authority. The body was buried along with ornaments – necklaces and a lot of pots. Some pots have never been used.
Would that be a proof that this site was a cemetery for religious authorities?And would the pots be used for offering?

Alguns quilômetros a mais, chega-se a Pedra da Caverna. Também recém-descoberta, leva a crer que seria a moradia da tribo que erigiu a estrutura do "Stonehenge do Amapá". A entrada para a caverna se dá por trás da grande pedra e deve ter meio metro de altura. Para prosseguir no interior desta pré-colombiana habitação, segue-se por um corredor de pedras estreito e totalmente sem iluminação solar. Esta dificuldade era vital para a proteção dos habitantes de ataques de animais de grande porte.

 Some kilometers ahead, you get to the “Rock Cavern”. One believe that this two-chamber habitation had been used by the tribe that erected the "Rêgo Grande"site. The fifty-centimetre entry of the cavern is behind of a seventy-meters rock. To get the first chamber you cross a very narrow rock hall ( about 40 centimetres width ). Such a difficulty was very important to protect the tribe from wild animals attacks.
A Pedra da Caverna está parcialmente coberta pela vegetação.
 The Rock Cavern is partly covered by vegetation.

Para adentrar na caverna, segue-se por um corredor de grandes pedras
que se estreitam cada vez mais.

Duas câmaras compõe a habitação. Sendo que em uma delas um filete de água goteja incessantemente da parte superior.
Na segunda câmara, nosso guia, Seu Garrafinha, destaca um monte de terra que pelas características foram trazidas de fora para cobrir o que ele acredita ser os restos mortais dos habitantes. Fragmentos de vasos de cerâmica estão espalhados sobre o monte.

In the second chamber, our guide, Mister Garrafinha, pointed out a mount of soil that for its characteristic doesn´t belong to the cavern. That is, a consider quantity of soil was brought for covering what the guide believes to be remains of the tribe members. On the mount pieces of pottery are spread.


Subir a pedra exige um certo sacrifício
 Climbing the rock demands sacrifice

Mas só assim podemos ter uma vista como esta.
 But up there the view is wonderful.
Seu Garrafinha - Mister Garrafinha
Seu Garrafinha e seus cães - Mister Garrafinha and his dogs.
Seu Garrafinha é calçoenense e é o Guarda de Parque do Sítio Arqueológico do Rego Grande.
Mas o senhor Lailson Camelo da Silva, mas conhecido como Seu Garrafinha, ou simplesmente Garrafa, para os mais chegados, não é simplesmente Guarda de Parque, mas sim o “Guardião do Parque”. Tamanha é sua dedicação para com o lugar que ficou conhecido como o “Stoneger do Amapá”. Dedicação, zelo e um novo modo de pensar e agir, foram amadurecidos em Seu Garrafinha pelo treinamento provido pelo IBAMA e é claro, pelo convívio com arqueólogos de diversas nacionalidades. "Antigamente eu olhava as coisas e não dava valor algum porque eu não entendia, mas hoje eu entendo e ajudo a proteger o lugar porque isso aqui é nosso". O abandono de certos hábitos que poderiam comprometer sua integridade moral é um exemplo claro da responsabilidade que Garrafinha sente sobre si. “O vício que tenho hoje é só o cigarro. Mas mesmo assim tem vezes que passo até quatro dias sem fumar.” Esclarece. O que dá mais alegria a ele é mostrar e explicar tudo o que sabe para os calçoenenses que como ele, conheciam as pedras mas não faziam idéia do que se tratava.

Quanto mais consciência Seu Garrafinha tem a respeito das causas ambientais, mais dedicação e preocupação recai sobre ele. Ao longo do trajeto para a caverna passamos por um trecho de mata atingido por um incêndio de causa desconhecida. As labaredas foram tão grandes que chegaram a atingir a vegetação do outro lado da estrada. "Eu sinto que cada queimada na floresta é como uma ferida no corpo humano." Lamenta o guia.
 
Sem dúvida alguma, Seu Garrafinha é uma das riquezas humanas de Calçoene.

 Mister Lailson Camelo da Silva, Garrafinha, is a native of Calçoene and is the guard in charge of the “Rêgo Grande” archaeological park. Working along with archaelogists from the others countries, Mister Garrafinha is a very important person for the reseaches as he holds a deep knowledge about the region of Calçoene. But this man is not a simple guard, in fact he is the guardian of the park as he takes his responsability very seriously. Nowadays he is very aproud of himself to be quit of bad habits that could smear his reputation. No doubt, Mister Garrafinha is one of the human treasures of Calçoene.


Rio Rêgo Grande
Contava papai um curioso episódio com relação a comunidade que vivia às margens desse Igarapé. É que as crianças daquela comunidade, num determinado ano, ficaram um bom tempo sem professora, o que estava causando preocupação para os pais. Tudo porque, no interior, costuma-se associar o profissional à localidade de trabalho. Tipo assim: “ o médico de Calçoene, o padre de Mazagão, a professora do Cunani...” e o problema era que ninguém queria ser a professora do Rêgo Grande.



Muito mais de Calçoene

Seu Mariozinho
Seu Mariozinho exibe o valioso achado cujos desenhos em alto e baixo relevo do cabo representam elementos do escudo holandês e uma cena rotineira de bar, na parte redonda.

Senhor Mário D´ALmeida, seu Mariozinho, natural do município do Amapá, está radicado em Calçoene há mais de dez anos, onde já chegou a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores. Seu Mariozinho tem, literalmente, a prova concreta da presença de holandeses em Calçoene. Trata-se de uma colher, provavelmente moldada em cobre, na qual pode-se observar o leão e a coroa, figuras presentes no escudo holandês. O objeto foi encontrado nas terras da outra margem do rio Calçoene, por onde passavam os troles carregados em ouro para ser desembarcado na Cachoeira da Sidomena com destino à Guiana Francesa.

Mister Mário D´Almeida, Mariozinho, shows a proof of Dutch presence in the Calçoene region. It´s a spool probably made in cobre or copper, where you can see the elements of the Dutch shield: a crown and a lion.

Habsburgo Real Family.
A coroa e o leão, figuras do escudo da Família Real - Habsburgo.


Aspectos da fauna e flora de Calçoene, em fotos de Flávia Pennafort

Flores do campo







Búfalos e garças.
Nas áreas pantanosas, bandos de garças vivem perto dos rebanhos de búfalos. A garça é uma ave aquática, pernalta, do gênero Árdea, de bico e pescoço compridos. Se alimenta de peixes, insetos aquáticos, moluscos, etc.
Gavião
Igarapé
Frutas silvestres.
Tucumãs.
Tucumã ( Astrocaryum aculeatum ), palmeira que pode atingir vinte metros de altura, cujo tronco tem faixas espinhosas, suas folhas são ascendentes, os frutos são comestíveis e, quando maduros, assumem a coloração amarela com tons avermelhados.
Siris
Peixe secando ao sol.
Foi um fim de semana bem cansativo...
Boa noite!

 
Eu, no meu "boi-tatá"


Um abraço,
Hélida

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Meus visitantes - Parte II


Um camaleão todas as tardes toma banho de sol
no telhado de casa.


E um beija-flor passa bem rapidinho pelo jardim.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Meus visitantes

Quem pensa que eu só recebo amigos para uma cervejinha básica, está enganado!!
Olhem só que aparece todo final de tarde, na varanda de casa, na hora do café com pão!!!


E no meu jardim ...

Depois da mosca na sopa do Raul Seixas, esta é a segunda mosca mais "abelhuda". Era para aparecer só a abelha na rosa e não a mosca na folha!

Festa em Louvor a São Joaquim - Curiaú

Encerrou nesta quinta-feira mais uma festividade em louvor a São Joaquim, padroeiro da comunidade do Curiaú ( ver postagem: Curiaú – Texto de Fernando Canto, quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 ). Com uma tradição de mais de dois séculos, todos os anos, de 09 a 19 de agosto, os moradores cumprem a programação que está dividida em folia e batuque. Sendo que a primeira tem caráter religioso e a segunda, profana.

Foliões tocando viola, pandeiro, xique-xique
e reco-reco acompanham o Mestre-Sala que
faz a marcação do ritmo tocando um pequeno sino,
chamado campa.

A folia consiste no convite em forma de canto para a reza da ladainha, na capela da vila e é presidida pelo Mestre-Sala, auxiliado pelos foliões. O Mestre-sala é a autoridade máxima no decorrer da cerimônia e se diferencia dos demais foliões por usar uma toalha em volta do pescoço.

O Mestre-sala convida os devotos para o incício das obrigações.

"Oh, devoto vamos rezar
A ladainha do Senhor
( Bis )

Ai, vamos nós todos adorar
É o sagrado resplendor
( Bis )

Ai, eu chamei todos os devotos
Ai, já são horas de obrigação
(Bis)"


 A ladainha é rezada em latim desde a formação do quilombo do Curiaú. Conduzida pelo Mestre-sala e respondida em coro pelos devotos. Ao fim da ladainha, o Mestre-Sala canta:

"Já estão rezadas, estão rezadas
Já estão cumpridas as obrigações
(Bis)
...
Bendito é, bendito é
Louvado seja
Bendito é, bendito é
Louvado seja lá na glória
(Bis)
...
Da cepa nasceu a palma
Da palma nasceu a flor
Da flor nasceu São Joaquim
Que é para nós o redentor"

Folia e ladainha formam a parte religiosa da festividade e não mudam no decorrer do período. Mas outros rituais fazem parte desta bicentenária manifestação.

No dia quatorze, é levantado o Mastro que carrega a bandeira de São Joaquim. Cortado das matas do Curiaú este mastro é o mesmo desde o princípio das festividades. Todo ano ele é repintado com as cores branca e azul características da festa.

No dia dezesseis, tem a vez da “Alvorada”, quando às 05:00 h, o Mestre-sala e os foliões se reúnem para as orações. É quando o folião que teve um mal comportamento durante o período da festividade pede perdão pelo ato. Para isso, deve rezar de joelhos um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Credo. É quando então os porta-bandeiras o cobrem com os pavilhões e o perdão é concedido.

Quando a folia termina é servido o jantar a todos os participantes. Geralmente um caldo reforçado para dar energias aos dançarinos que ficam até o amanhecer.

O batuque
 
Manifestação de origem africana onde uma arquestra percutível acompanha o "ladrão"*, cantado geralmente por membros mais velhos da comunidade. Os dançarinos giram em volta dos batuqueiros, dançando no sentido anti-horário.
 
Uma fogueira é acesa para aquecer o couro dos instrumentos do batuque:
dois tambores, confeccionados de macacaúba e couro de bois e três pandeiros
 feitos de cacaueiro e couro de bode.


A orquestra do batuque é composta de dois tambores, denominados de repique, o mais fino; e amassador, o maior. São confeccionados todos os anos de macacaúba e couro de bois. Já os pandeiros são feitos a partir da madeira cacau e de couro de bode, ou sucuriju, quando é encontrada.

 
Tão logo começam as primeiras batidas nos instrumentos, as senhoras com suas saias longas e floridas começam a bailar o que é um convite a todos para entrarem na roda do batuque e acompanharem os “ladrões”.
 

As festividades em louvor a São Joaquim demonstram a forte religiosidade dos devotos para com o Santo e o batuque manifesta as raízes africanas tão arraigadas em sua cultura.

*Os cânticos são chamados "ladrões", porque, durante sua execução, um participante "rouba" a "deixa" do outro e, a partir do mote roubado, de forma improvisada, compõe um novo verso.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Bem-te-vi

Ao passear pela praça da Bandeira em um belo domingo ensolarado eu avistei este dengoso “Bem-te-vi” como quem tendo algo a me pedir.


E não é que ele tinha!!!


Quem pode resistir a tal apelo??!! Olha só o jeitinho dele!!
Que fofo!!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Festa de Santiago - Mazagão Velho

Este ano, o Distrito de Mazagão Velho celebrou 233 anos de festividades em louvor a São Tiago. Cumprindo uma extensa programação no período de 16 a 28 de julho, que envolveu missas, procissões, novenas, ladainhas, dança típica, entre outros. A festividade tem como ponto máximo as encenações, no dia 25,  das lutas entre mouros e cristãos travadas na segunda metade do século XVIII, no norte do continente Africano. Trata-se de um verdadeiro espetáculo ao ar livre, produzido e representado pelos membros da comunidade.

O número de visitantes cresce a cada ano. À sombra das árvores às margens do rio Mutuacá
eles esperam pelo início do espetáculo

O colonizadores de Mazagão vieram da cidade fortificada do mesmo nome, situada em Marrocos, no continente Africano que nas últimas décadas do século XVIII era a única é última possessão portuguesa no norte daquele continente. O interesse de Portugal na cidade se dava pela situação geográfica privilegiada de seus portos que favorecia o comércio. Os marroquinos formavam, assim, um único reduto cristão no mundo mulçumano. Tal situação gerou um período de muitos conflitos religiosos em que mouros e cristãos ( mulçumanos ) se enfrentaram em batalhas sangrentas até que em 1769 “O governador da Praça de Mazagão, Dinis Gregório de Melo e Castro, percebendo que a situação estava insustentável – grandes perdas humanas, devido ao último ataque de 1768, e falta de mantimentos – levou a Coroa a reconhecer que não poderiam mais conservar a praça – forte. Daí resultou a decisão de D. José – sob a influência de Pombal – de abandonar a praça, o que foi feito no dia 15 de março de 1769, seguindo a população remanescente para Lisboa.” ( Albuquerque, 2007 )

O interessante desse conflito entre mouros e cristãos é que os últimos foram expulsos por causa da guerra religiosa, mas não perderam as batalhas. Tiveram muitas perdas humanas e materiais como é sabido, mas o êxito militar é orgulhosamente encenado durante as festividades no mês de julho. Segundo relatos de populares a campanha militar cristã foi tão brava e astuta que atribui-se a vitória graças à intervenção de São Tiago, que lutou na forma de um guerreiro anônimo.

Atores representando os soldados cristãos vestem trajes brancos.
Soldados mouros trajam branco e vermelho

A tradição em defender a fé cristã e o domínio lusitano impulsionou a Coroa a trazer as famílias da Mazagão africana para o norte do Brasil a fim de colonizar a região e impedir o assentamento estrangeiro nas possessões lusitanas.

No dia 24, há a "Entrega dos Presentes" e o "Baile de Máscaras". Os mouros não conseguindo êxito militar decidiram apelar a outras estratégias: ofereceram aos cristãos comida envenenada como presente de trégua. Desconfiados, os cristãos jogaram uma parte da comida aos animais do inimigo confirmando assim, a suspeita de que estaria envenenada.

Um baile de máscaras é oferecido pelos mouros para que os cristãos que quisessem “trocar de lado”, pudessem fazê-lo sem ser reconhecidos. É nesta ocasião que os mouros provam do próprio veneno: os cristãos levaram o que sobrou da comida presenteada e a distribuíram entre os inimigos. Muitos soldados morreram, entre eles, o rei Caldeira, líder muçulmano, que foi substituído por seu filho, Caldeirinha. Este ordenou o rapto das crianças cristãs que foram vendidas e o dinheiro arrecadado serviu para a compra de armamentos.

Este fato inflamou a fúria dos cristãos que recomeçaram a campanha com tão grande anseio de vencer que chegaram a pedir a Deus que prolongasse o dia para que tivessem mais tempo para conseguir a vitória. Batalha após batalha, o rei Calderinha foi aprisionado, muitos soldados mouros foram mortos, o restante fugiu. Campanha vencida, … “os cristãos rejubilaram-se pela vitória agradecendo a Deus e, em passeata, levaram o rei mouro vencido. À noite, depois de tudo, organizaram um baile chamado “Vomonê” ou “Vominê”, que vem simbolizar a vitória alcançada por eles.”
( Fonte: http://www.edgarrodrigues.com.br/variedades/a-festa-de-sao-tiago-em-mazagao-velho )


Mascarados: durante as festividades raptam as crianças que são resgatadas
por seus pais mediante pagamento simbólico: um pedaço de papel. Esta tradição mantém viva na memória o rapto das crianças cristãs ordenado pelo rei Caldeirinha.


"Bobo Velho", espião mouro que se infiltrou entre os cristãos para conhecer as estratégias
destes e ao ser descoberto foi expulso a pedradas e pauladas.Todos os anos um ator representa o espião. Ele percorre a cavalo um determinado circuito da cidade recebendo arremessos de bagaços de laranja. O ato é uma maneira de humilhar as forças inimigas derrotadas. O ator voluntário às vezes é um pagador de promessas. Pode até parecer brincadeira, mas o choque dos bagaços com o corpo são muito bem ouvidos e quem testemunha de perto pode garantir que os espectadores têm boa pontaria.

Crianças mazaganenses preparando a “artilharia”.
Elas chupam laranjas para arremessar o bagaço no “Bobo Velho”.


Atalaia, espião cristão que arrebatou a bandeira inimiga.
Foi morto e decapitado como forma de intimidação às forças cristãs.


Mais sobre Mazagão: Rio Mutuacá


O rio está se estreitando a cada ano. Contam os moradores que tal fenômeno se dá em razão de uma maldição É que nas primeiras décadas da colonização, o padre da cidade permitiu que fosse realizada festa profana no dia dedicado a São Tiago provocando a revolta dos moradores devotos do santo. O padre foi expulso da cidade, mas antes de partir profetizou que o rio Mutuacá iria secar a tal ponto que uma galinha o atravessaria voando.

Em sua “Lendas do Amapá: A Maldição do Padre”, o pesquisador Edgar Rodrigues nos dá outra versão: o padre juntou boa fortuna e foi ao Pará trazendo consigo dezenas de brilhantes em forma de olhos, os quais foram colocados nos santos, inclusive em São Tiago. O sacristão da igreja, por acidente, descobriu que em vez de brilhantes, os santos tinham olhos de vidro. Revoltados com o padre, a população o aprisionou e o condenou a morte. “Quando estava na eminência de balançar no cadafalso, o sacerdote limpou suas sandálias no chão e amaldiçoou o povoado, profetizando que em alguns anos o rio Mutuacá ficaria tão seco que seria possível uma galinha atravessar andando por seu leito. Morto o padre desonesto, o rio também começou a morrer. Seu leito foi se estreitando de tal maneira que até mesmo as pequenas embarcações tinham dificuldades em navegar. Em pouco tempo morreu também o comércio local e muitos mudaram-se em busca de melhores condições de vida, formando a vila de Mazagão Novo.” ( http://www.edgarrodrigues.com.br/variedades/mortedopadre )

Há, ainda, uma outra versão para o estreitamento do rio: durante o movimento da Cabanagem, os mazaganenses a fim de evitar a entrada das forças do movimento Cabano, alteraram o curso das águas do Mutuacá ao colocar grandes pedras no seu leito.

Visitar Mazagão é retornar ao passado!


Ruínas de uma igreja construída no século XVIII.